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quinta-feira, 10 de maio de 2018

OLHEMOS A ARGENTINA COMPANHEIROS...

Quando visitei a Argentina em 2005 fui à Buenos Aires pela primeira vez e presenciei uma efervescência política em torno, não apenas de uma Argentina mais progressista e que tinha saído há pouco de uma grave crise econômica, mas também do debate por uma América do Sul mais descolada do imperialismo americano. Lembro que na Plaza de Mayo, manifestantes e universitários seguravam um cartaz com a foto de vários presidentes sulamericanos: Lula estava no centro do cartaz e, no entorno, formando um rosário, estavam dispostos Kirchner, Chavez, Evo Morales (ainda não era presidente, mas havia indicativo de sua esmagadora vitória meses depois), Vásquez, dentre outros, cujos dizeres no respectivo cartaz eram "abaixo FMI", "derrotamos a ALCA", etc. Quando conversava com aqueles estudantes, percebi que havia uma sensação de alívio, frente ao fim da dependência do país em relação aos EUA, cujo retrato havia sido de desvalorização cambial, aumento do desemprego, falência das empresas nacionais, exploração do trabalho, enfim, diversas mazelas. Tais fenômenos eram oriundos do receituário neoliberal, pregado e disseminado pelos organismos internacionais e realizado por governos liberais que estavam à frente, não apenas da Argentina, mas também dos demais países sulamericanos antes deste milênio. No caso brasileiro, é conhecida a política empregada por FHC, de cunho neoliberal, que perpetuou a fome e a pobreza; geriu uma política de austeridade que culminou na venda de grandes estatais, em grandes empréstimos tomados junto ao FMI e Banco Mundial, e outras. Logo, o povo sulamericano, diante de tanta perversidade presenciada na década de 1990, como um levante, elegeu governos progressistas e socialistas na maioria dos países da América do Sul. Findava-se, naquele momento, nossa subserviência em relação às políticas implementadas pelos EUA e seus organismos aos países do "Sul". Foi uma década de amplo crescimento econômico e, principalmente, de viabilização de direitos. Na Bolívia, Evo Morales mandou as exploradoras como Petrobrás e Nestlé embora, desprivatizou a água e outros setores e viabilizou direitos; na Venezuela, Chavez implementou políticas de transferência de renda e inclusão social; no Brasil, Lula implementou políticas de erradicação da pobreza e combate à fome, além de inúmeros programas sociais; na Argentina, Kirchner negociou a permuta da dívida nacional e reembolsou o Fundo Monetário Internacional, além de iniciativas que tornaram a moeda competitiva e ressuscitaram empresas nacionais. Todos juntos, disseram NÃO à ALCA! Os Estados Unidos, por mais de uma década, deixaram de utilizar a América do Sul como um dos quintais de exploração para seu próprio desenvolvimento. Enumerei apenas algumas das inúmeras políticas que canalizaram os recursos públicos para a provisão de bens públicos e sociais, com amplo aumento de bens de consumo coletivo e políticas de bem estar social, cujo espectro é gigante. Como era previsto, tais políticas não agradou os EUA, seus organismos, os investidores e, também, as elites vendidas destes países, uma vez que a viabilização de direitos significa menos recursos para os famosos "investimentos", tão aclamados pelo mercado. Logo, ataques intensos pela mídia destes países (cujo Brasil tem o exemplo mais completo e acabado do que significa o papel de uma mídia lacaia do imperialismo), unificada com estes setores acima arrolados, iniciou uma campanha assídua de destruição da imagem e do papel destes governos, encontrando quaisquer possibilidades de ataque que desencadeassem em  erosões destes governos. Como receita, os "economistas" e "jornalistas" diziam exaustivamente que tais governos realizavam medidas "populistas" que deveriam ser combatidas, pois a única chance de alcançar o pleno desenvolvimento era realizar medidas de austeridade, reduzir o tamanho do Estado e atrair investimentos. Essa receita, contra a vontade da maioria, não tinha efeito, pois governos que atendem os pobres tendem a perpetuar-se no poder, a despeito de todos os ataques internos e externos, uma vez que o órgão mais sensível do corpo humano chama-se "bolso" e, por meio dele, há a possibilidade de emancipação e dignidade, sobretudo daqueles explorados pelo trabalho, que é a maioria. Logo, a única chance do imperialismo retomar sua dominação era via golpes de Estado. Lugo sofreu golpe de Estado no Paraguai em 2012; a Nicarágua, a Venezuela, o Equador e a Bolívia passaram por grandes investidas reacionárias; Dilma sofreu Golpe no Brasil em 2016; a Argentina, na lógica da manipulação democrática descrita por Galeano, elegeu governo neoliberal. Apesar de dizerem "aqui não é o Brasil" (referindo-se à inércia e à apatia dos movimentos sociais e da esquerda brasileira frente ao golpe e à retirada de direitos), eles foram tão manipulados que acreditaram que a receita para o desenvolvimento era o programa de Macri. Quando ele ganhou, logo pensamos: "não daremos 2 anos para esse almofadinha estar de pires na mão pedindo dinheiro para o FMI e a gente utilizar a Argentina de laboratório pra mostrar ao povo brasileiro de que o receituário neoliberal é uma conversa pra boi dormir". Essa semana, os principais veículos de comunicação já estamparam que Macri teve que lamber as botas do Tio Sam e inserir a Argentina em um circuito idêntico ao da década de 1990, que gerou crises, subserviência, dependência e pobreza. O Brasil, via golpe, está adentrando o mesmo caminho, mas por aqui ainda temos uma chance, se soubermos capitalizar o que está acontecendo na Argentina e divulgar ao povo como será nosso futuro se cairmos nas conversas da direita reacionária. Claro que sabemos que estamos diante de uma eleição covarde e fraudulenta, uma vez que o pseudojudiciário prendeu  Lula  - o candidato que ganharia as eleições no primeiro turno - cuja imagem era destaque no cartaz que vi em Buenos Aires. Por aqui, deveremos utilizar o exemplo da Argentina para demonstrar que todas essas receitas estampadas ad nauseam pela mídia não passam de uma possibilidade de viabilizar ainda mais o capital financeiro e entupir de dinheiro essa "elite do atraso" (Jessé de Souza) que atravanca o desenvolvimento nacional desde sempre. Olhemos a Argentina companheiros...

Fonte da Imagem: https://goo.gl/YPYL2X

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Ricardo Luiz Töws

Doutor em Geografia pelo PGE-UEM - Programa de Pós-Graduação em Geografia, membro do GEUR - Grupo de Estudos Urbanos e do Observatório das Metrópoles - Núcleo R.M.M. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR Campus Avançado Astorga).
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