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quinta-feira, 1 de março de 2018

ORDEM E PROGRESSO


A ordem do dia é a ordem. De preferência "ordem e progresso". Melhor ainda se for "lei da ordem". Ouvimos isso todas as vezes que conectamos a qualquer mídia ou meio de comunicação de massa. As emissoras concentram, agora, todos os esforços para espetacularizar a intervenção militar. Se antes assistíamos coletivas de imprensa em que jornalistas faziam perguntas para os colarinhos brancos ou engravatados, agora a mesa de comando é verde oliva. É preciso escrever as perguntas para que os militares possam avaliar se merecem ou não respostas. A estética da coisa é assustadora. A arquitetura também. Mas é preciso retomar, especular, entender e resistir.

Desde o golpe, quando o slogan passou a ser "Ordem e Progresso", já era visto o que teríamos pela frente. A tomada de poder ganhou um direcionamento cuja pauta estava recheada das reformas, sobretudo contra o trabalhador, ou seja, contra os pobres. Bloquear os gastos públicos por 20 anos, como a primeira grande reforma, já demonstrou que a estratégia era de mudança total do leme. Se antes havia alguma esperança para o trabalhador, em termos de aparato de políticas públicas, agora evidencia-se, com toda a força, o Estado mínimo em contraposição à privatização de tudo e ao desenvolvimento do setor privado.

A mídia concentrou-se em fomentar a culpabilização partidária e viabilizar o golpe, mobilizando seus "manifestoches", como bem demonstrou a Paraíso do Tuiuti no Carnaval do Rio. As reformas continuaram, em simbiose com as estratégias de "estancar a sangria, com judiciário, com tudo", no sentido de terminar com as investigações contra a quadrilha que tomou o poder e, ao mesmo tempo, "mantenha tudo como está", no sentido de manter as engrenagens da fraude bem engraxadas. De preferência com graxa GM (iniciais do "advogado" do PSDB no STF). O filão era a reforma da previdência, grande bandeira da "ponte para o futuro", só que não (sqn).

Na cidade estúdio da rede de televisão ocorreu a verdadeira espetacularização. O combate à violência e a demonstração de todas as tragédias ad nauseum por essa emissora fizeram parte das estratégias do que viria pela frente. É inquestionável o desarranjo e a violência urbana no Rio, mas sabemos que não é de agora e nem é o pior cenário. Em última instância, não para justificar uma intervenção, liderada, presidida, executada e viabilizada por militares. Isso é preciso evidenciar. Das 304 cidades com mais de 100 mil habitantes, a cidade do Rio de Janeiro é a 171ª no ranking de mais violentas, considerando as variáveis 'morte por homicídio' e 'Mortes Violentas com Causa Indeterminada (MVCI)', de acordo com o IPEA. Entre as capitais, Rio de Janeiro só é mais violenta do que cinco, como ilustrado no quadro 1.

Quadro 1:

Na mesma medida, se pensarmos em números de mortes por intervenções legais, ou seja, a partir de ações da própria polícia, constatamos que o estado do Rio é o que mais mata. Logo, é também uma violência policial. Eles matam e morrem por lá. E quem diz isso é o IPEA, como pode ser visto no quadro 2.

Em números absolutos, o número de homicídios no estado do Rio caiu 46,2% entre 2005 e 2015, ou seja, naquele ano eram 5.978 homicídios contra 3.182 em 2015 (IPEA, 2017), como ilustrado no quadro 3. Ainda é um número muito alto, mas como dizia Brizola, comparando com a intervenção de 1964, não era pra tanto. Logo, o problema reside na estratégia. Enquanto a mídia escorre sangue como se o Rio fosse o pior lugar do mundo, sabemos que a violência em Porto Alegre, Natal, Fortaleza e tantas outras são agora ampliadas pelo aumento da pobreza, fruto dessa ponte para o futuro presidida por Temer.

Quadro 2:
fonte: Atlas da Violência IPEA

Quadro 3: 

fonte: Atlas da Violência IPEA


Se os números falam por si, então já sabemos que a intervenção não ocorreu por conta da violência no Rio de Janeiro. Tem mais variáveis que precisam ser consideradas. Fevereiro foi épico em termos de carnaval. Paraíso da Tuiuti denunciou o Golpe e os manifestoches e a Beija-Flor, ainda que com parte do discurso coxinha, denunciou algumas mazelas; pregaram faixas no morro dizendo que "se Lula for preso, o morro vai descer"; a cidade e o estado do Rio foram abandonadas por seus gestores nos dias do Carnaval, quiçá como estratégia para demonstrar que o Estado não funciona e precisa de intervenção.

No mesmo ensejo, Temer jogou a toalha da "D"eforma da Previdência, pois, em ano eleitoral, já sabemos, opera a lógica do voto e, neste caso, os deputados querem aparecer nos "santinhos" como salvadores da pátria e não como maléficos ao povo. Depois do voto eles operacionalizam as maldades. Então como fazer pra bloquear todas as votações que dizem respeito à constituição, inclusive aquela da imunidade parlamentar? Está fácil essa...

A terceira e última variável, refere-se à manutenção do presidente "margem de erro", dada sua baixa popularidade. Como acaba o pseudomandato em 31 de dezembro e, com isso, sua imunidade parlamentar, então é fácil saber onde Temer vai parar, tendo como base o volumoso conjunto de provas, malas de dinheiro, gravações e trambiques. Nada mal ter os militares nas costas, quem sabe pra "manter tudo como está".

O problema é que essa máquina que foi ligada tem vida própria. Em 1964 a coisa começou com uma intervenção temporária, pra resolver e colocar o Brasil em ordem. Em 1968 tivemos AI-5 e o fim da Ditadura Militar só em 1985. Agora criaram uma intervenção no RJ que juram que não é militar, mas só vemos milicos. 24 horas por dia a TV ganhou tons de "camuflagem". Querem licença pra matar e se incomodam com qualquer possibilidade de uma nova Comissão da Verdade. Falam da guerra às drogas, mas não buscam as origens. Um dos caminhos pode ser o Congresso Nacional. Tem helicópteros e fazendas já noticiadas, pertencentes a senadores por aí.

Não se noticia outra coisa. O medo tem a mesma dosagem da inércia de toda a sociedade. Estou envergonhado e não sei como contar pra minhas filhas que deixei isso acontecer com nosso Brasil. Vejo o vídeo do Brizola (abaixo) remetendo-se há décadas atrás e parece que ele está narrando o que está acontecendo agora. Pra saber o tamanho do retrocesso, é só ver o vídeo. O enredo é idêntico ao golpe de 1964, só que agora a sociedade parece mais alienada, amorfa e manipulada. Se há medo naqueles que estão contra, pois exército só serve pra abater inimigos e ele está na rua, há anestesia nos que se dizem neutros. Nesse caminho, o Brasil caminha a passos largos para uma nova Ditadura e para receber a última pá de cal que falta pra enterrar de vez com a democracia.



O que esperar dos dias que estão por vir? Até onde pode chegar a truculência de quem foi preparado pra matar e organizar as coisas de cima pra baixo, sem ouvir o outro? Quais as perspectivas para os próximos dias? Arrisco a dizer: Teremos eleições? Não é essa ordem e nem esse tipo de progresso que, como professor, sonhei para este país.

Fonte da imagem: Brasil de Fato

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Ricardo Luiz Töws

Doutor em Geografia pelo PGE-UEM - Programa de Pós-Graduação em Geografia, membro do GEUR - Grupo de Estudos Urbanos e do Observatório das Metrópoles - Núcleo R.M.M. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR Campus Avançado Astorga).
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