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quinta-feira, 15 de março de 2018

Duas Mortes, Duas Vidas!




Meu post de hoje tem a ver com dois acontecimentos que representam dois universos, distintos em muitos aspectos, mas relacionais em alguns deles. O primeiro, diz respeito ao falecimento de Sthefan Hawking, que faleceu no dia do π, aquele número enorme que é abreviado como 3,14 e serve como parâmetro para cálculos esféricos: os egípcios descobriram que a razão entre o comprimento de uma circunferência e o seu diâmetro é a mesma para qualquer circunferência, e o seu valor é um número um pouco maior que 3. A morte dele, além dessa coincidência, definida a data de comemoração por ser 14/03, ainda tem algumas outras, como, por exemplo, ter sido a data de nascimento de nada mais, nada menos do que outro físico famoso, Albert Einstein. Outra curiosidade é que Hawking nasceu no mesmo dia de Galileu Galilei, que dispensa apresentações. Todos esses dados coincidentes tem um fio condutor: ambos foram grande gênios. Hawking ficou conhecido no mundo pela sua pesquisa sobre buracos negros, mas principalmente pelo Best-Seller "Uma breve história do tempo". Depois disso, sua vida virou filme e ficou imortalizada nos anais da história. Julgado por parte da comunidade religiosa por ser ateu e reconhecido pela comunidade científica pelos seus feitos, Hawking deixará um legado importante, não só em termos de contribuição científica, mas pela capacidade de superação e luta pela vida, mesmo diante de uma doença tão cruel que o atormentava. Logo, o legado representa sua continuidade, como suporte e inspiração para a investigação científica bem como por representar essa garra e luta, em uma perspectiva de lição de vida para os que se sentem derrotados por muito menos. Neste mundo da tecnologia e da informação como momento e miragem, o pesquisador demonstrou, como poucos, que o conhecimento sobre o Universo demanda muito mais do que rápidas e imprecisas informações. Nesse debacle das correntes progressitas e libertárias no mundo, a ciência tem sido colocada de escanteio em face à valorização de costumes e pensamentos da Idade Média. Na outra ponta, quero falar de outra morte, também no dia do π. É a morte da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL-RJ), o que tudo indica, por execução. Mas a única relação com o circulo ou esfera tem a ver com a reincidência: mulher - negra -  favelada - alvo - ad infinitum. É a triste realidade brasileira, mais mediatizada na cidade do Rio, que agora atinge uma representante da comunidade. Curiosamente, a execução ocorreu exatamente após uma denúncia realizada por ela, quando publicou nas redes sociais o seguinte texto: "Sábado de terror em Acari! O 41º batalhão é conhecido como Batalhão da Morte. É assim que sempre operou a polícia militar do Rio de Janeiro e agora opera ainda mais forte com a intervenção. CHEGA de esculachar a população. CHEGA de matar nossos jovens". Em outra postagem, ela ainda disse "Mais um homicídio de um jovem que pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?" Coincidência ou não, é um fato que precisa ser investigado e apurado com toda força, não apenas pelo fato de ser a vereadora, mas pela gravidade, pela brutalidade e por ocorrer exatamente após a denúncia realizada por ela. Em outro artigo, que intitulei "Ordem e Progresso", demonstrei com dados do IPEA a relação entre as mortes e o papel da polícia militar no Rio de Janeiro. Seria essa mais uma? Ela citou a intervenção militar em andamento, oriunda desse nefasto golpe contra a sociedade e, mais do que isso, demonstrou como a violência foi intensificada. Mas não demonstrou como alguém alienado, que se ampara em fakenews, sobretudo aquelas editadas em jornais de cobertura nacional. Demonstrou com base em conhecimento de causa, uma vez que era cientista social e defendeu uma dissertação de mestrado intitulada "UPP: A redução da favela a três letras". Há consistentes pesquisas e investigações que tratam do tema no Rio de Janeiro, mas a sociedade insiste em não se apropriar do conhecimento que é produzido nas universidades. É cultural. Agora, neste ciclo de mortes e ataques contra negros, até a ONU se pronunciou que "No Brasil, um jovem afrodescendente é morto a cada 21 minutos". Esse circulo de atrocidades precisa ser estancado. Pra isso, é preciso dar vozes àqueles que pensam e lutam por uma sociedade com mais equidade e justiça. A linha mestra que liga os dois fatos diz respeito à negação de bases científicas para valorizar crenças. É um perigo, pois vemos ações em diversos países que se assemelham muito àqueles registrados na história como catástrofes e massacres. A guerra civil parece uma realidade no Rio de Janeiro, mas a população ainda não mandou a real. Em qual momento nos moveremos contra isso?? Hawking vive pra continuarmos a pensar sobre o Universo com bases científicas. Marielle vive, como mais uma vítima que representa o estado da arte da miséria humana, vitimizada direta ou indiretamente por gente com beca verde-oliva.

 

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Ricardo Luiz Töws

Pós-Doutorando pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ); Doutor em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Maringá (PGE-UEM); Pesquisador do Grupo de Estudos Urbanos (GEUR/UEM) e do Observatório das Metrópoles (UFRJ e UEM). Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR); Consultor da UNESCO/MEC; Conselheiro no Conselho Municipal de Planejamento e Gestão Territorial (CMPGT) de Maringá (PR) e Delegado da Assembléia de Planejamento e Gestão Territorial 5 (APGT-5) de Maringá (PR).
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