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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PARAÍSO DO TUIUTI É A CAMPEÃ DO POVO

Hoje vou falar do Carnaval. É sabido que é uma festa que conseguiu suplantar as forças do Império Romano, em termos de imposição religiosa (foi incorporado pelo Cristianismo) e resistiu no tempo, ganhando cada vez mais força como festa do povo. É a festa da expressão cultural. Mais do que isso, antropologicamente, é visto como um ritual de reversão, em que as normas de comportamento são suspensas, ou seja, ocorre a subversão dos papeis sociais. Poderia historicizar um pouco sobre as festas de Ísis (Egito), Sortes (Hebreus), Bacanais (Gregos), as Saturnais (Roma Antiga), dentre outras. Mas vou concentrar no nosso caso, pois a reflexão será pautada neste evento específico de 2018. No Brasil, iniciou-se ainda no Brasil Colonial, inicialmente com influência das festas portuguesas e, na sequencia, foi ganhando traços do povo brasileiro que, de fato, estava se formando. Houve uma intrínseca correlação com a música, sobretudo o samba, frevo, maracatu, marchinhas e outros gêneros. Muitos enredos, neste processo, foram elaborados em consonância com as características de um povo ou de uma comunidade, nem sempre manifestando a reversão ou a subversão, mas exatamente a realidade. Mas em nenhuma ocasião, houve tão clara clivagem de representação ideológica, em que um grupo, Beija-Flor, tentou representar a realidade brasileira, mas montou seu enredo com base em narrativas conservadoras e patrimonialistas e outro grupo, Paraíso de Tuiuti, demonstrou, de fato, o que está ocorrendo no país frente ao golpe jurídico-midiático-parlamentar. Mais do que isso, escancarou ao mundo nossas mazelas herdadas da casa-grande e da senzala. De um lado, a mídia dominante e manipuladora já cravou o resultado antes da somatória dos pontos. Não vou entrar no mérito do julgamento, pois desconheço os trâmites, mas quero evidenciar que Tuiuti conseguiu um posto que jamais tinha conseguido, que é o segundo lugar no julgamento. Beija-Flor representou a ideia de que tudo o que estamos vivenciando e a desigualdade é fruto da corrupção. Tem uma parcela de verdade, pois sabemos quanto de recurso é mal gerido ou desviado e quanto o país poderia ter uma posição mais privilegiada se não tivéssemos esse câncer por aqui. Mas é uma análise absurdamente limitada, pois é preciso dizer mais. É preciso dizer que há problemas estruturais, de dominação e de manutenção desse establishment. Não dá pra ficar enaltecendo um judiciário que é, na essência, parcial e tendencioso. Não dá pra fazer a negação da política e, subliminarmente, endeusar o mercado, quando sabemos que os problemas residem no mercado, no sistema produtivo, na má distribuição de renda e no desenvolvimento geográfico desigual. Tivemos que ver Paraíso do Tuiuti demonstrar ao mundo o que a mídia  esconde por aqui. Conseguiram colocar uma "cebola cortada ao meio e sem lavar" na garganta dos comentaristas da Rede Globo, que emudeceram e viram as máscaras que eles escondem implodirem. Demonstraram ao mundo que uma classe média, inundada de almofadinhas e oportunistas, é reacionária frente às possibilidades de um país melhor para todos e, por isso, viraram "manifestoches" e foram às ruas atender os pedidos da emissora de TV de retirar uma presidenta honesta e, em seu lugar, colocar um traidor, golpista e, como demonstrou a escola de samba, o "presidente neoliberal". Sim, aquele que tem por pauta de governo o projeto perdedor nas urnas, que entrega o país aos ditames do capital internacional e sufoca o povo com políticas de austeridade. Em outras palavras, que faz o povo pagar a conta via cortes de direitos e dá privilégios aos investidores e ruralistas. Muito mais do que isto, Paraíso do Tuiuti demonstrou que ainda continuamos subservientes, que a escravidão ainda está aqui e que a alienação social tomou conta dos fantoches de sempre. Por isso, a atitude dessa escola deve ser enaltecida por muito tempo. Como estão dizendo nas redes, é a campeã eterna do povo de 2018 em diante. É campeã pois conseguiu mostrar para o mundo nossa aberração. Conseguiu dizer aquilo que os blogueiros não conseguem, não por serem incompetentes, mas sim em virtude dos bloqueios e redirecionamentos nas redes e, mais do que isso, uma vez que para os manifestoches não adianta escrever textões, pois são analfabetos funcionais. Em outros termos, não lêem! Se lerem não entendem! É preciso ilustrar, na prática mesmo, com imagens e objetos, quem sabe assim conseguem compreender como suas atitudes afetam negativamente nosso país.  Já sei que ocorrerão todas as possíveis e impossíveis tentativas para emudecer e esconder esse feito. Cabe a nós, que queremos um país mais justo, continuarmos falando e divulgando sobre isso "ad nauseum". Urge fazermos mais disso, espelhados e inspirados por Tuiuti, que demonstrou que, com coragem, é possível fazer. Quem sabe assim, emplacamos alguma consciência e transformamos a letargia de um povo em pistas não apenas representativas, mas reais de luta e mobilização por direitos. 

Fonte da imagem: https://goo.gl/pV5tYd

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Ricardo Luiz Töws

Pós-Doutorando pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ); Doutor em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Maringá (PGE-UEM); Pesquisador do Grupo de Estudos Urbanos (GEUR/UEM) e do Observatório das Metrópoles (UFRJ e UEM). Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR); Consultor da UNESCO/MEC; Conselheiro no Conselho Municipal de Planejamento e Gestão Territorial (CMPGT) de Maringá (PR) e Delegado da Assembléia de Planejamento e Gestão Territorial 5 (APGT-5) de Maringá (PR).
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