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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

O GOLPE DE ESTADO EM CURSO NO BRASIL E A VIOLÊNCIA À SOBERANIA POPULAR


Recebi, com gosto amargo, o resultado do impedimento da Presidenta Dilma Vana Rousseff, legitimamente eleita pelo Povo Brasileiro. Depois da redemocratização do país, tivemos 4 presidentes eleitos pelo voto popular, em que dois foram impedidos pelo Congresso Nacional, consubstanciando em taxa líquida de 50% de sobrevivência, em um modelo estrutural de Estado que, com tais ações, se configura como semiparlamentarista. Mas vivemos em uma República Presidencialista, o que, canaliza para afirmarmos que há uma erosão do edifício criado por este Congresso.

Não há palavras que pudessem contrapor ao espectro criado por um grupo hegemônico que se fortaleceu depois das eleições de 2014. A consolidação do Congresso mais conservador da história, emanado e eleito por uma elite econômica capitalizada pelo ódio e valorizado pela mídia tendenciosa, viabilizou um golpe parlamentar que marcará negativamente a história do nosso país. O golpe de Estado colocou em cheque a soberania popular. Palavras melhores do que estas foram proferidas pelas Senadoras Gleisi, Vanessa, Regina, Angela, e as demais, bem como pelos Senadores Requião, Lindberg, entre outros, que detidamente defenderam a justiça e a soberania do voto popular, no entanto, de nada adiantou, pois, como disseram os golpistas, nada mudaria o voto deles.

O impedimento se iniciou com as eleições de 2014. O crime pouco importou pois, sabemos, os fluxos e tramites definidos no processo de gestão são idênticos de presidentes anteriores bem como é procedimento comum nas administrações dos estados e municípios. Então, cooptaram traidores, como Cristóvão Buarque, aliaram-se com o que há de mais sujo na política brasileira, como Eduardo Cunha e Aécio Neves e, a partir de uma base sólida de usurpadores, destituíram nossa presidenta.

O jargão da corrupção permaneceu por um tempo, até que a curvatura atingiu o eixo duro do PMDB, como ministros interinos que caíam dia após dia. Delações premiadas não conseguiam mais sustentar que a corrupção era do PT, pois, no fazer alcaguete dos traidores de seus pares, as investigações escancararam as armações desse grupo sujo e colocaram em evidência que os principais corruptos e corruptores eram exatamente os que estavam articulados pela consumação do golpe. Enquanto isso, as investigações dos últimos 30 anos não conseguiram atingir Lula e Dilma, que tiveram suas vidas reviradas pela polícia e, como sempre, as pequenas notas da mídia tiveram que confessar vossa inocência e isenção. Do outro lado, Serra, Alkmin, Neves, Machado, Temer, Dias, Barros, Richa, Agripino, Caiado, Mendonça e toda sua laia, eram identificados, pela justiça, como os sabotadores da pátria, do próprio poder judiciário, do poder executivo e do legislativo, a partir de assaltos ao erário público, aprovação (no caso do legislativo) de medidas escandalosas, propinas pra todo lado, violência contra manifestações (executivo), violência contra os trabalhadores, espúrios e escusos acordos para fugirem e abafarem as investigações que os colocariam no xadrez. Tudo isso debaixo do nariz do MPF, STF e PF!

Neste caso, não importava mais falar sobre corrução, pois a falência do discurso ocorreu por inanição: coxinhas e reaças vestidos de verde e amarelo tiravam selfies com Eduardo Cunha e com o Japonês da Federal e, dias depois, tiveram que assistir que seus heróis não passavam de sapos, ou melhor, ratos, cujo fim, se a justiça tiver um milésimo de brio, é coloca-los no xilindró para sempre! Uma vez que esse tiro saiu pela culatra, resgataram um mote que já havia sido plantado sob medida e professado por Aécio Neves: “criamos a crise política, não aprovamos nenhuma medida desse governo e, sem o Congresso, não há governo e economia que resista”. O plano, mancomunado com os aliados do PP, DEM, PSDB, Solidariedade, PMDB e outros, deu conta de proporcionar o caos econômico anunciado detidamente pelos meios de comunicação, com grandes ídolos como Sardenberg, Miriam Leitão e toda essa corja, que, de fato, viabilizaram a recessão e colocaram a culpa no executivo. A palavra de ordem era viabilizar a economia para os investidores e especuladores.

Um cenário de crise plantada a partir dessas estratégias viabilizou a queda da soberania popular e do voto democrático no dia 31 de agosto de 2016. Aos olhos do mundo temos um mandatário que não tem a unção do voto, mas que, como ocorrera em outras ocasiões, constituiu um governo do PMDB no executivo e, agora, nos três poderes da República.

Em seu pronunciamento e em sua primeira reunião com seus ministros, a destilação do ódio e o discurso autoritário, nas entrelinhas, deu a exata noção do que teremos pela frente: seremos tolhidos de manifestações, inclusive com a repressão orientada sob todos os que disserem que foi Golpe. Ou seja, foi Golpe mas não podemos dizer que foi Golpe. Seremos ceifados dos direitos inerentes ao estado de bem-estar social, pois a ordem é viabilizar a economia para os investidores e especuladores. A justificativa? A de sempre! A de gerar empregos e tirar o país da crise. Porém, nas palavras deles sabemos: a constituição de um exército social de reserva e a viabilização da precariedade do trabalho é mote necessário para que os proprietários dos meios de produção e detentores da propriedade privada possam expandir suas rendas.

Hoje, um dia depois, tive que escutar, em rede nacional, via rádio, o que há de mais sujo, baixo e misógino, vindo de Geddel Vieira Lima contra a nossa presidenta. Lamentavelmente, a cultura do ódio, disseminada pós 2014, agora tem sua erupção da forma mais violenta possível, desde os mandatários que usurparam o poder, estendendo-se pelos seus apoiadores que, nas ruas, já alimentam o clima do ganhou-perdeu! 

Minha avaliação? A alternativa é descer às ruas, intensificar as manifestações e tirar a paz dos golpistas. Com muita elegância e timbre ajustado, a esquerda deverá mostrar que as ruas sempre pertenceram à população e aos trabalhadores que buscam direitos e não a essa corja que buscou privilégios. Teremos que mostrar ao mundo nossa insatisfação e escancarar que não dá mais para deixar o coronelismo imperar neste país. Somos inteligentes, pois a maioria dos grandes intelectuais (de fato, não os pseudointelectuais) são da esquerda e pensam que a saída para o desenvolvimento é a viabilização de bens de consumo coletivo para a população via Estado. Mas temos que reconhecer que perdemos! Perdemos para quem tem nas mãos os meios de comunicação e o poder de manipulação das massas! Mas perdemos pra nós mesmos. Os 13 anos foram suficientes para que as bases se desorganizassem e os movimentos espraiassem pelos rincões do país, alimentando seus egos. Agora? Temos 2 anos pra mostrar que somos muito maiores do que os batedores de panelas! Somos mais e maiores do que os reacionários movidos pelas ideias de seus patrões e dos moradores da orla de Miami. Somos milhares, que, de fato, criamos uma envergadura para mostrar ao mundo que é possível erradicar a fome e combater a pobreza! Fomos representados por pessoas que viabilizaram o pão e circo de forma “olimpicamente olímpica”, trazendo pra cá a Copa do Mundo e as Olimpiadas! Mas também viabilizou emancipação, formação cidadã, formação técnica, realização do sonho da casa própria, do carro popular, da multiplicação do salário mínimo e da participação popular nas decisões profícuas do governo. Temos pouco mais de 2 anos pra jogar na cara dos desinformados que a saída é a viabilização da estrutura do Estado para os trabalhadores e não para o capital especulativo. Temos 2 anos pra ver arrefecer todas as políticas públicas setoriais e regionais, que deram emancipação social ao povo brasileiro, porém, se conseguirmos nos articular, teremos outros 20 no poder para levar à frente, novamente, um país soberano, que proporcione direitos às minorias, às mulheres, aos pobres e a todos, nesta imensa nação continental.

À Presidenta Dilma, a quem devo satisfações pela autoridade que o voto deu, desejo cada vez mais forças, mas sei que não preciso, pois, nestes últimos dias, tem mostrado ao Brasil, de cabeça erguida e olhando nos olhos, que não é um bando de misóginos, machistas e golpistas que vão conseguir aplacá-la. Ela está acima dessas criaturas, o que nos anima para continuar esse combate e oposição às injustiças que ainda somos obrigados a vivenciar.


Às brasileiras e brasileiros que não compactuaram com essa barbárie, à disposição para o diálogo, para a aprendizagem e para a revolução. Aos demais, sorte! Ainda não têm a dimensão do que fizeram!


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Ricardo Luiz Töws

Doutor em Geografia pelo PGE-UEM - Programa de Pós-Graduação em Geografia, membro do GEUR - Grupo de Estudos Urbanos e do Observatório das Metrópoles - Núcleo R.M.M. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR Campus Avançado Astorga).
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