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sábado, 6 de agosto de 2016

SOBRE AS OLIMPÍADAS: CARTA ABERTA A MICHEL TEMER

Por Francisco Costa


Sr. Michel Temer
Sou filho de uma geração que viveu um terço da vida sob uma ditadura, o que faz em mim coabitarem um guerreiro e um poeta, nem sempre em relação amistosa.
Escrevo no momento em que acabou a cerimônia das Olimpíadas Rio 2016, ainda sob o impacto do que assisti, mais do que nunca orgulhoso de ser brasileiro.
Tivesse a oportunidade de mil vidas, com direito de escolha, e mil vezes eu nasceria aqui.
Talvez sensibilizado pelo espetáculo, não consegui olhá-lo com os olhos do guerreiro, mas só com os do poeta, e me apiedei.
O senhor destoou, foi corpo estranho, pouco a vontade, esperando os merecidos apupos, só não maiores porque o povo estava extasiado pelo que via e sentia.
Começo chamando a sua atenção para o fato de que as músicas executadas e/ou interpretadas ao vivo, foram todas de e por artistas legalistas, que têm criticado o golpe, abertamente.
Os organizadores, em quase sua totalidade, têm posições públicas assumidas e determinadas, anti golpe.
Seus pares, Chefes de Estado e demais autoridades, pouco se dignaram a sequer olharem para o senhor, que não foi citado em nenhum discurso, não teve cumprimentos, por ser o anfitrião, e irão embora sem agendar um encontro, o que quer dizer que o mundo não o reconhece Presidente deste país que, segundo os Institutos de Pesquisas, o rejeita, majoritariamente.
Diante da grandeza do espetáculo, da beleza, era de se esperar um sorriso seu, ou comentário com alguém próximo, o que não aconteceu.
Enquanto aguardava o início da solenidade, as tevês do mundo todo mostraram e discutiram as manifestações populares nas ruas do Rio, com gritos de Fora Temer, exigindo cadeia para todos os corruptos do país, o que inclui grande parte do seu ministério e seus aliados no parlamento.
Perdoe-me uma indiscrição: quando menino, por causa da pobreza, cultivei o hábito de ser penetra em festas, oportunidades quase únicas de eu beber refrigerantes e comer guloseimas.
Em muitas fui recebido naturalmente, mas em outras me senti mal, por me saber não parte do ambiente, um estranho, indesejado, sem conhecer ninguém, incomodando pela presença, e imaginei que o seu semblante triste, inseguro, sem trocar palavra com ninguém, aplaudindo alheio, como se só cumprisse o protocolo e as normas da boa educação, traduziu exatamente este sentimento, este estado de espírito.
Presumo que por trás da sua aparente frieza e indiferença existam sentimentos, ou pelo menos consciência, o que deve ter agravado ainda mais o seu emocional.
O Senhor está no poder, usurpado, perdoe-me a sinceridade, há dois meses e meio e nesse curtíssimo intervalo de tempo nada pode ser feito para a concretização do espetáculo de hoje, isto foi fruto de sete anos de trabalho árduo, planejamento e investimentos, principalmente do governo federal.
Hoje foi só o início, amanhã começam as competições e teremos muitos brazucas em condições de conquistar medalhas, fruto de esforços pessoais e condições de treinamento, nos mesmos padrões dos seus adversários, o que só se tornou possível por causa das Bolsas Atleta, custeadas pelas estatais que o Senhor pretende privatizar, e esta também foi uma iniciativa do governo federal.
A festa não foi completa, lá não estava ninguém do partido que a fez acontecer no Brasil, ninguém que cuidou da infra estrutura e do financiamento, os que abraçaram com carinho e seriedade a oportunidade de nos mostrarmos ao mundo em toda a nossa grandeza.
Lá não estavam Dilma Vana Rousseff e Luis Inácio Lula da Silva, que não tiveram assento na tribuna de honra do Maracanã, mas que permanecem em tribunas de honras outras, na gratidão de cada brasileiro que, como eu, está orgulhoso do que viu, junto com o resto do mundo.
O seu mal estar, visível, teve motivos, e por isso me apiedei.
Lastimo, mas triste é o país em que os cidadãos mesclam raiva e piedade pelos seus dirigentes, sintoma de que eles não têm a dimensão que o povo deseja, precisa e merece.
Prefiro-me vítima da raiva alheia do que da piedade, o que me apequenaria.
A festa de hoje, belíssima, além das expectativas, não foi completa: faltaram os anfitriões e tinha alguns penetras.
Francisco Costa
Rio, 06/08/2016.
Retirado da timeline de Ricardo José Martins 


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Ricardo Luiz Töws

Doutor em Geografia pelo PGE-UEM - Programa de Pós-Graduação em Geografia, membro do GEUR - Grupo de Estudos Urbanos e do Observatório das Metrópoles - Núcleo R.M.M. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR Campus Avançado Astorga).
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