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terça-feira, 12 de maio de 2015

Livros Pierre Bordieu

"Pierre Bourdieu, nascido em 1º de agosto de 1930, em Denguin (Béarn), morreu em Paris, no dia 23 de janeiro de 2002. Eleito diretor, em 1965, da VI Seção da École pratique des hautes études, que em 1975 se tornou École des hautes études en sciences sociales, continuou sendo seu membro integral após ingressar no Collège de France, em 1982, até se aposentar, no verão de 2001. A partir de 1968, dirigiu no Collège de France o Centro de sociologia européia, fundado por Raymond Aron, onde criou, em 1975, sua célebre revista, Actes de la recherche en sciences sociales, que dispõe de um lugar à parte entre todas as revistas internacionais de sociologia, especialmente em razão de sua abertura às outras ciências sociais. Como decano da Assembléia dos professores, presidiu a cerimônia consagrada à eleição do presidente daÉcole, em junho de 2000, e ainda esteve entre nós, em junho de 2001, para a eleição anual dos diretores". (ENCREVÉ, P; LAGRAVE, R-M. Memória do trabalho, memória no trabalho. In: ENCREVÉ, P; LAGRAVE, R-M. Trabalhar com Bourdieu. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p. 8).


Seguem alguns livros de Pierre Bordieu:


BOURDIEU, P. A Dominação Masculina

BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas

BOURDIEU, P. A ilusão biográfica

BOURDIEU, P. As regras da arte

BOURDIEU, P. Coisas Ditas

BOURDIEU, P. Escritos da educação

BOURDIEU, P. Homo Academicus

BOURDIEU, P. Lições da Aula

BOURDIEU, P. Meditações Pascalianas

BOURDIEU, P. O poder simbólico

BOURDIEU, P. Os Usos Sociais da Ciência

BOURDIEU, P. Para uma Sociologia da Ciência

BOURDIEU, P. Questões de Sociologia

BOURDIEU, P. Razões Práticas - Sobre a Teoria da Ação

Texto sobre seu pensamento publicado no Le Monde:


A fábrica de opinião pública
As questões da opinião esclarecida são difundidas para produzir respostas de todos sobre problemas que se apresentam para alguns: questões que não existiam para as pessoas passam a existir a partir do momento em que essas pessoas são interpeladas a respondê-las como se de fato fossem questões suas
por Pierre Bourdieu
O homem oficial é um ventríloquo que fala em nome do Estado: assume uma postura oficial – com todo o teatro do oficial –, fala para e se coloca no lugar do grupo ao qual se dirige, fala para e se coloca no lugar de todos, fala como representante universal.
Análoga ao homem oficial está a noção moderna de opinião pública. O que é essa opinião pública evocada pelos criadores do direito das sociedades modernas, as sociedades em que o direito existe? Tacitamente, é a opinião de todos, da maioria ou daqueles que contam, dos dignos de ter uma opinião. A opinião pública é a opinião esclarecida, a opinião digna do termo.
As comissões oficiais funcionam segundo a lógica de criar um grupo com todos os elementos exteriores – socialmente reconhecidos e reconhecíveis – necessários para formar uma opinião digna de ser expressa, de acordo com determinados padrões. Um dos critérios tácitos mais importantes na seleção de membros dessas comissões, em particular o presidente, é a intuição de que conhecem as regras tácitas do universo burocrático e as respeitam: dito de outra forma, qualquer um que saiba jogar o jogo da comissão de forma legítima, ou seja, que legitima o jogo para além do próprio jogo e suas regras; jamais se está dentro do jogo quando se está além dele. Em todo jogo, há regras de fair-play. A propósito do homem cabila, ou do mundo intelectual, eu havia usado a seguinte fórmula: a excelência, na maior parte das sociedades, é a arte de jogar com as regras do jogo, fazendo desse jogo e de suas regras uma homenagem suprema ao jogo. Segundo essa lógica, a figura do transgressor controlado se opõe totalmente à figura do herege.
O grupo dominante coopta membros a partir de indícios mínimos de comportamento, como a boa conduta e a manutenção da ordem – entendidas como a arte de respeitar as regras do jogo até mesmo nas transgressões normatizadas pelas regras do jogo. É a aplicação da célebre frase de Chamfort: “O vigário pode sorrir de um comentário contra a religião, o bispo pode gargalhar, e o cardeal pode até mesmo agregar algumas palavras”.1 Quanto mais alta a hierarquia na escala de excelência, mais se permite jogar com a regra do jogo: a posição é tal que não deixa margem para dúvida. O humor anticlerical do cardeal, portanto, é extremamente clerical.
A opinião pública ainda é uma espécie de realidade com duplo sentido. É aquilo que não pode não ser invocado quando se quer legislar em terrenos não constituídos ou consolidados. Quando se discute “vida jurídica” (expressão extraordinária) em relação à eutanásia ou a bebês de proveta, convocam-se pessoas com autoridade para trabalhar no assunto. Dominique Memmi2 descreve um comitê de ética sobre a procriação artificial: composto de um conjunto de pessoas tão díspares – psicólogos, sociólogos, mulheres, feministas, arcebispos, rabinos, especialistas etc. –, tem por objetivo transformar alguns idioletos3 éticos em um discurso universal capaz de definir a vida jurídica, ou seja, dar uma solução oficial a um problema difícil com consequência para os hábitos da sociedade – por exemplo, legalizar as mães de aluguel. Ao trabalhar com esse tipo de situação, é necessário invocar a opinião pública. Nesse contexto, é compreensível a função atribuída às pesquisas de opinião. Dizer “as pesquisas estão a nosso favor” é o equivalente a dizer “Deus está entre nós”, em outro contexto.
Mas as sondagens podem ser incômodas: às vezes, enquanto a opinião esclarecida é contra a pena de morte, as pesquisas revelam que a maioria é a favor. O que fazer? Formar uma comissão. A comissão transforma a opinião esclarecida em opinião pública e, portanto, legítima – embora muitas vezes diga o contrário ou não tenha de fato uma opinião sobre o assunto (caso de muitos temas). Uma das características das pesquisas é apresentar problemas hipotéticos às pessoas e induzir respostas a questões inexistentes – ou seja, impor respostas. Não se trata de discutir a maneira usada para constituir a amostragem, e sim o fato de que as questões da opinião esclarecida, nem sempre existentes em outras instâncias, são difundidas em outros meios para produzir respostas de todos sobre problemas que se apresentam apenas para alguns: questões que não existiam para as pessoas passam a existir a partir do momento em que essas pessoas são interpeladas a respondê-las como se de fato fossem questões suas, essa é a questão.
Vou traduzir um fragmento de Alexandre Mackinnon de 1828, tirado de um livro de Peel sobre Herbert Spencer.4 Mackinnon define a opinião pública, definição que seria oficial se não fosse inconfessável em uma sociedade democrática. Quando se fala em opinião pública, há um duplo sentido entre a definição legítima (a opinião de todos) e a opinião autorizada e eficiente que é obtida da opinião pública democraticamente definida: “[A opinião pública] é esse sentimento sobre qualquer tema forjado pelas pessoas mais bem informadas, mais inteligentes e mais autorizadas moralmente na comunidade. Essa opinião é gradualmente difundida e adotada por todas as pessoas de alguma educação e adequadas a um Estado civilizado”. A verdade dos dominantes se transforma na verdade de todos.
Na década de 1880, dizia-se abertamente na Assembleia Nacional aquilo que a sociologia deveria redescobrir, a saber, que o sistema escolar deveria eliminar as crianças das camadas menos favorecidas. No início, a questão foi apresentada explicitamente, para, em seguida, desaparecer por completo – pois o sistema escolar passou a fazer, sem que fosse solicitado, o que se esperava dele. Já não havia a necessidade de explicitar certos procedimentos. Exatamente por isso, o interesse na gênese desses processos é muito importante, pois no início sempre há debates em que algumas coisas são expressas com todas as letras, antes de se dissolverem – e ser novamente retomadas em revelações provocativas de sociólogos.
O reprodutor do oficial sabe produzir, no sentido etimológico do termo: producere significa “trazer ao dia”, “conduzir à manifestação” – teatralizando o termo, trata-se de falar em nome de algo que ainda não existe (no sentido de não estar sensível ou visível). O reprodutor oficial deve produzir algo em nome daquilo que ele tem o direito de produzir. Ele não pode não teatralizar, não dar forma, não fazer milagres. O milagre mais ordinário, para um criador verbal, é o próprio milagre verbal, o êxito retórico; ele deve produzir o contexto que autoriza suas palavras, deve conformar a autoridade em nome da qual ele está autorizado a falar.
Encontrei a definição de “prosopopeia” que buscava agora há pouco: “figura de linguagem que atribui sentimentos e palavras humanas a animais, coisas personificadas, mortos ou ausentes”. E no dicionário, instrumento sempre inspirador, encontramos esta frase de Baudelaire a respeito da poesia: “dominar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiço evocatório”. Os clérigos – que manipulam uma linguagem erudita como os juristas e os poetas – devem colocar em cena o referente imaginário em nome do qual falam e produzem quando evocam discursos a partir de sua forma particular de linguagem; devem fazer existir aquilo que expressam e aquilo em nome do que expressam. Devem, ao mesmo tempo, produzir um discurso e a convicção na universalidade desse discurso por meio da produção sensível, da evocação de espíritos, fantasmas – o Estado é um fantasma... É dessa forma que “a nação”, “os trabalhadores”, “o povo”, “o segredo de Estado”, “a segurança nacional”, “a demanda social” etc. são produzidos.
Percy Schramm mostrou como as cerimônias de coroação dos imperadores eram a transferência, para a ordem do político, de cerimônias religiosas.5 Se o cerimonial religioso pode transferir-se tão facilmente para as cerimônias políticas, através das cerimônias de coroação, é porque se trata, nos dois casos, de fazer crer na existência de um fundamento do discurso que aparece como autofundador, legítimo, universal apenas pela teatralização – no sentido de evocação mágica, sortilégio – do grupo unido e de acordo com o discurso que o une. Também funciona dessa forma o cerimonial jurídico. O historiador inglês E. P. Thompson insistiu na importância do papel da teatralização jurídica no século XVIII inglês – o uso das perucas, por exemplo. Ela não pode ser totalmente compreendida se for considerada apenas um simples aparato, no sentido de Pascal: ela é constitutiva do ato jurídico.6 Criticar a roupagem do direito é arriscado: modificá-la pode prejudicar a pompa do discurso. É comum ouvir que é preciso reformar a linguagem jurídica, porém nada é feito a respeito – pois ela é a última vestimenta do direito: os reis nus não são tão carismáticos.
Uma das dimensões importantes da teatralização é a teatralização do interesse como interesse geral; é a teatralização da convicção do interesse pelo universal, do desinteressado homem político – teatralização da crença do padre, da convicção do homem político, de sua fé naquilo que faz. Se a teatralização da convicção faz parte das condições tácitas do exercício da profissão de clérigo – ou de um professor de Filosofia, que deve passar a impressão de acreditar na filosofia –, é porque ela é a homenagem essencial do oficial-homem ao oficial; é ela que faz do oficial um oficial, um verdadeiro oficial. O desinteresse não é uma virtude secundária: é a virtude política de todos os mandatários. Os deslizes de padres, os escândalos políticos representam o desmoronamento dessa forma de crença política na qual todos estão de má-fé, sendo a crença um tipo de má-fé coletiva no sentido sartriano: um jogo no qual todos mentem a si mesmos e mentem aos outros sabendo que mentem. Isso é o oficial...




 1 Nicolas de Chamfort, Maximes et pensées [Máximas e pensamentos], Paris, 1795.
2 Dominique Memmi, “Savants et maîtres à penser: la fabrication d’une morale de la procréation artificielle” [Sábios e mestres em ação: a fabricação de uma moral da procriação artificial], Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n.76-77, 1989, p.82-103.
3 Do grego idios, “particular”: discurso particular.
4 John David Yeadon Peel; Herbert Spencer, The evolution of a sociologist [A evolução de um sociologista], Londres, Heinemann, 1971. William Alexander Mackinnon (1789-1870) teve uma longa carreira como membro do Parlamento Britânico.
5 Percy Ernst Schramm, Der König von Frankreich. Das Wesen der Monarchie von 9 zum 16. Jahrhundert. Ein Kapital aus Geschichter des abendlischen Staates (dois volumes), H. Böhlaus Nachf, Weimar, 1939.
6 Edward Palmer Thompson, “Patrician society, plebeian culture” [Sociedade patrícia, cultura plebeia], Journal of Social History, 7 (4), 1976, p.382-405.
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Ricardo Luiz Töws

Doutor em Geografia pelo PGE-UEM - Programa de Pós-Graduação em Geografia, membro do GEUR - Grupo de Estudos Urbanos e do Observatório das Metrópoles - Núcleo R.M.M. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Paraná (IFPR Campus Avançado Astorga).
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